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CESAR .
Publicado em: 19 de março de 2026
Tecnologia
O fim das tendências e o narcisismo digital: os recados mais urgentes do SXSW 2026 para os líderes brasileiros

Por Eduardo Peixoto, Paula Marques, Flávia Nascimento e Victor Ximenes
O maior evento de inovação do mundo decretou a morte das previsões estáticas e fez um alerta sobre a terceirização emocional, com o verdadeiro diferencial competitivo para as empresas, migrando da adoção da IA para a capacidade de preservar conexão, ética e julgamento humano
Durante uma semana, Austin, no Texas, transformou-se mais uma vez no epicentro global das discussões sobre o amanhã. Mas, ao contrário dos anos anteriores, em que o deslumbre com o potencial bruto da tecnologia dominava os palcos, o SXSW 2026 entregou ao mercado um recado claro e maturado: a grande questão da nossa era não é mais o que a Inteligência Artificial pode fazer, mas como queremos viver com ela.
A pergunta que pairou no ar entre executivos, cientistas e criativos não foi “como otimizar?”, mas sim “como nos conectar?”. Como CEO de um centro de inovação que respira tecnologia há quase 30 anos, acompanhei de perto, junto ao time do CESAR, as discussões que pautarão as estratégias corporativas nos próximos anos. E o que vimos foi um chamado coletivo para deixarmos de tratar a IA como uma ferramenta isolada e passarmos a enxergá-la como um novo membro da nossa estrutura social, econômica e emocional.

Um dos momentos mais comentados do festival ilustra essa transição, quando a futurista Amy Webb “enterrou” no palco seu relatório anual de tendências. Ainda que se trate de um gesto bastante simbólico, ele traz o recado prático de que se faz necessária uma mudança de postura do mundo corporativo, sugerindo que o modelo de olhar para tendências isoladas se esgotou. A urgência agora é mapear as convergências de cenários, deixando de lado a premissa de tentar adivinhar um futuro distante, para focar em entender como o choque dessas múltiplas forças impacta o seu negócio agora.
Nessa nova dinâmica, Webb destacou três movimentos que vão reconfigurar os negócios: a amplificação humana (tecnologias que transformam o corpo em plataforma), o trabalho ilimitado (sistemas automatizados operando sem fadiga, rompendo a lógica tradicional de produtividade) e a terceirização emocional (o uso de IA para funções afetivas e de cuidado). Líderes que ignorarem essas convergências e continuarem operando na zona de conforto dos planejamentos estáticos serão simplesmente ultrapassados.
Essa terceirização emocional nos leva a outro ponto crítico do festival, levantado de forma brilhante pela psicoterapeuta Esther Perel e pelo cineasta Spike Jonze. Vivemos a era do “narcisismo digital”. Como o mito grego, estamos nos apaixonando por nossas próprias criações, com o agravante de que a tecnologia atual permite que essas criações nos amem de volta, adaptando-se perfeitamente aos nossos desejos.
O alerta de Perel deve ecoar nas salas de diretoria de quem constrói produtos digitais: a ausência de fricção nos relacionamentos mediados por máquinas pode estar nos tornando menos capazes de lidar com a complexidade da vida real. A IA pode ajudar a entender emoções, mas o desafio das empresas é desenhar tecnologias que ampliem a conexão humana, e não que a substituam por interações previsíveis e sob controle.
🔗Leia também: Batom Inteligente desenvolvido pelo Grupo Boticário e CESAR é premiado no SXSW Innovation Awards 2025
É por isso que a cientista Rana el Kaliouby cravou que a próxima fronteira da IA não é o QI, mas o QE (Quociente Emocional). A indústria avançou rápido demais na capacidade computacional e esqueceu de desenvolver a inteligência social das máquinas. Para os líderes empresariais, o recado é direto: o diferencial competitivo no futuro não será apenas usar IA, mas construir culturas organizacionais que integrem humanos e tecnologia com confiança, transparência e segurança psicológica.
Por fim, o SXSW 2026 nos lembrou que a inovação caminha lado a lado com a responsabilidade ética. Vimos o pesquisador brasileiro Alysson Muotri apresentar “mini-cérebros” cultivados em laboratório que envelheceram dez anos em um mês no espaço, abrindo caminhos inéditos para a neurologia. Vimos Aza Raskin, da Earth Species Project, mostrar como a IA está decodificando a comunicação de outras espécies, alertando para a necessidade urgente de criar proteções legais internacionais antes que incentivos econômicos transformem essas descobertas em novas formas de exploração.
🎯 O hiato entre o que podemos fazer e o que deveríamos fazer é o espaço onde a ética, a política e a cultura precisam operar. A tecnologia avança em velocidade exponencial, mas nossa capacidade de processar seu significado, não.
Para os líderes brasileiros, a provocação final de Austin é ambígua e necessária. A IA é inevitável, e abraçá-la é condição para seguir relevante, mas, em um mundo de execução automatizada, o valor migra rapidamente para o julgamento, o repertório, a criatividade e a capacidade de colaboração. O futuro não será definido apenas pelo que a tecnologia torna possível, mas pelo que escolhermos fazer com ela, e essa escolha, felizmente, ainda é profundamente humana.
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