Pessoas e transformação digital: Um olhar para o sujeito psicológico

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Trata-se, para além de reconhecer esse sujeito como consumidor, colaborador, empreendedor, valorizá-lo como pessoa capaz de diálogo, afeto e visibilização

Por Luciano Meira

No espectro das transformações digitais contemporâneas, as pessoas surgem geralmente como sujeitos do consumo em mercados diversos, ou colaboradores associados a corporações, ou empreendedores que lideram startups de inovação, além de outros tantos possíveis papéis sociais que lhes emprestam uma identidade, mais ou menos estável, no grande esquema que forma as Bases para a Gestão de Negócios na Era Digital. Tanto estes papéis quanto a nossa atuação efetiva nos negócios digitais, caracterizados pelo que pode ser resolvido, comunicado e potencializado por plataformas computacionais, são discutidos nos demais artigos dessa série. Nessa breve reflexão, convido o leitor para dar um passo “atrás” e observar as pessoas como sujeitos psicológicos, a fim de nos perguntarmos o que somos “antes” e para além de consumidores, colaboradores, empreendedores etc.

Segundo Rafael Echeverría, um dos formuladores da prática de Coaching Ontológico e cofundador da Newfield Consulting, autor do livro Ontología del Lenguaje, os sujeitos psicológicos são a orquestração, às vezes caótica, de três dimensões fundamentais da existência: a linguagem, o corpo e a emocionalidade.

A linguagem é, por assim dizer, o que funda nossa condição humana, nossa subjetividade. Há um conjunto relevante de teorias, sistemas conceituais e pesquisas empíricas na psicologia, na linguística, na filosofia, e até em áreas como a inteligência artificial, que, juntas, fundamentam esse caráter fundacional da linguagem. Aqui, adiantarei apenas que a linguagem é uma forma de ação que realiza coisas no mundo. Sendo assim, toda transformação requer também a construção de um discurso realizada através da conversação, da argumentação, da metáfora, entre outras formações linguísticas. Se pensarmos na pessoa como consumidor, por exemplo: observe como todo projeto publicitário-mercadológico é, basicamente, uma tentativa de convencimento do outro através de estratégias verbais, visuais e sonoras da linguagem. Da mesma forma, se pensarmos em nossas organizações como sistemas complexos de conversações, desde aquelas mais formais que ocorrem nas trocas de e-mails institucionais até as mais informais que emergem no cafezinho, deveríamos ser muito mais atentos (1) ao que se fala, (2) como se fala e (3) a quem nos dirigimos, como formas de percebermos a missão e os valores de nossas instituições num mundo em constante transformação digital.

O maior desafio que os seres humanos enfrentam não é nos conhecermos. O maior desafio é nos inventarmos. Os seres humanos participam com os deuses do ato sagrado de nossa própria criação.

Rafael Echeverría, autor de Ontología del Lenguaje

A segunda dimensão considerada por Echeverría parece até óbvia: somos seres corpóreos; estamos mergulhados nas possibilidades, desejos, dores e limitações de um corpo que ao mesmo tempo nos empresta a materialidade da vida e sua inevitável finitude. Mas, nos ambientes de trabalho, o corpo é usualmente objetificado pelo confinamento, pelo controle sobre suas dinâmicas próprias, pelos pré-conceitos sobre seus múltiplos formatos, cores, gêneros e sexualidades. Por outro lado, as organizações percebidas como líderes da transformação digital são geralmente aquelas que proporcionam ambientes físicos e normas de conduta que visibilizam e acolhem melhor as pessoas na sua diversidade existencial, seja através de espaços que facilitam a aproximação e o trabalho colaborativo, por exemplo, seja através de um dress code conectado ao clima local e estilos pessoais.

Por fim, a dimensão da emocionalidade nos remete a uma concepção dos sujeitos como seres sociais, participantes ativos de circuitos diversificados de afeto, muito mais que sujeitos de uma racionalidade idealizada. Grande parte daquilo que hoje se fala acerca da importância da empatia, desde o entendimento do cliente, passando pelas formas de liderança que exercemos até as práticas de resiliência empreendedora, depende fundamentalmente do exercício de uma emocionalidade fluida, não determinística e aberta à emergência do novo.

Essas dimensões se articulam dinamicamente para a emergência do sujeito como agente de transformações, inclusive como agente das transformações digitais nos mercados e nas organizações. Trata-se, portanto, para além de reconhecer esse sujeito como consumidor, colaborador, empreendedor ou tais quais, valorizá-lo como pessoa capaz de diálogo, afeto e visibilização. Importante observar que essa perspectiva produz ambientes de mais confiança e proximidade interpessoal no ambiente de trabalho, um movimento que beneficia não apenas o chamado “clima organizacional”, mas que pode impactar objetivamente a produtividade dos negócios, conforme defendem Carmen Migueles e Marco Tulio Zanini, pesquisadores da FGV – Fundação Getúlio Vargas e da Fundação Dom Cabral na reportagem do jornal Valor Econômico: “Os autores identificaram o que chamam de ‘passivos organizacionais’ da cultura brasileira que consomem tempo, energia e que resultam em perdas de competitividade e produtividade. Entre eles, está a distância entre o poder e a base, a baixa confiança que faz com que exista um excesso de regras e controles que engessam a cooperação interna, a pouca disciplina pessoal e o foco exagerado no curto prazo.”

O sujeito como pilar da  transformação

Como sócio-empreendedor da Joy Street, empresa de jogos digitais para aprendizagem no Porto Digital em Recife, procuramos implementar práticas que sustentam um cotidiano pautado por essa percepção de sujeito. Por exemplo, horizontalizamos quase que completamente o tráfego de conversações entre nossos cinquenta colaboradores, do estagiário ao CEO, apostando na capacidade dos indivíduos de autorregulação e corregulação, mesmo que mantendo também estratégias de monitoramento exercidas por um líder de operações e as gerências de projetos, munidas por métodos ágeis de gestão. Também buscamos variar os papéis de cada colaborador no desenvolvimento dos projetos, abrindo a oportunidade para a emergência de processos criativos fomentados pela diversidade de visões e, em particular, pelas diferentes formas de envolvimento afetivo e de visibilização exercidas por diferentes pessoas ao longo do tempo.

Somos agentes de uma era em transformação digital. Como sujeitos psicológicos, construímos continuamente novos paradigmas de existência baseados nos usos que fazemos da linguagem, de nossos corpos e dos circuitos de afetos que emergem nas organizações e fora delas. A transformação digital é resultado de uma articulação muito particular dessas dimensões, que cria diferentes formas de vida em diferentes contextos organizacionais. Nas palavras de Echeverría, “o maior desafio é nos inventarmos”.

 

Luciano Meira Ph.D. em educação matemática pela Universidade da Califórnia (Berkeley/EUA), mestre em psicologia cognitiva e bacharel em pedagogia. Atua como professor da UFPE – Universidade Federal de Pernambuco, é professor colaborador do Mestrado Profissional em Design do CESAR, coordenador de ciência e inovação da Joy Street e pesquisador associado do Lemann Center for Educational Entrepreneurship and Innovation in Brazil pela Stanford University.

 

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