Aprendizagem, diálogo e diversão

Aprendizagem, diálogo e diversão

por Luciano Meira

Foi com as crianças da Escola Recanto, no Recife, que aos 19 anos comecei a fazer as perguntas que alimentaram meu desejo de empreender.

Minha história como empreendedor começou tarde, em 2010, como sócio-fundador da Joy Street e junto com um monte de gente do mercado e da universidade em Recife. Na Joy Street também sou CSI (Chief of Science and Innovation), título que criei como referência sarcástica ao seriado de TV, levando-se em conta que empreender em nosso país é, às vezes, tão arriscado quanto matar ou morrer.

Além de ter a “função de atrapalhar” a parte mais organizada da empresa, tenho, entre minhas atribuições, que trazer a pesquisa científica para dentro do problema, para dentro dos processos de inovação da Joy, e realizar a “venda conceitual”, aquela parte da inovação em que anunciamos o que ainda não temos.

Embora muitas pessoas pensem que a Joy desenvolve games, somos na verdade uma empresa de educação que usa jogos digitais e estratégias de gamificação para criar cenários inovadores de aprendizagem. Fazemos isso guiados por um conceito maluco de D3NA (explicado aqui: bit.ly/Vfgjdg), através da implementação de dois produtos principais: (1) uma olimpíada de jogos digitais inspirada em e-sports, mas trabalhando competências do ENEM para o Ensino Médio e da Prova Brasil para o Ensino Fundamental II (“OJE”: bit.ly/2iO601G); e (2) um ambiente de aprendizagem profissional online para capacitação corporativa, técnica e acadêmica baseado em missões e desafios, cujo propósito é transformar para muito melhor o EAD tradicional (“APTA”: bit.ly/APTA_video).

De certa forma, entretanto, eu já era empreendedor antes da Joy e durante toda a década anterior, quando ajudei a desenvolver vários projetos de inovação educacional no CESAR. Assim foi com o design pedagógico e das práticas didáticas da Escola NAVE (Recife e Rio de Janeiro), do Plug Minas (Belo Horizonte) e do Coletivo Coca-Cola (várias cidades), entre outros. Conceber empreendimentos assim, pensando em sua sustentabilidade mesmo sem ter que cuidar diariamente de seu fluxo de caixa, foi importante para as bases de uma reflexão sistêmica sobre a inovação que transforma cenários educacionais e, em particular, a vida das pessoas para melhor.

Foi numa outra ação no próprio CESAR, anterior a tudo isso, no início dos anos 2000, que comecei a empreender um produto, a evoluí-lo enquanto solução e a desenvolver seu modelo de negócios. A ação foi a Prova Interativa, uma plataforma de provas capaz de simular a colocação de seus usuários no ENEM e vestibulares das maiores universidades do país, solução única e bastante poderosa à época. O time era de feras, liderado por Antônio Valença (hoje CEO da Pitang) em um CESAR que ainda habitava o galpão recém-construído em cima do prédio do Centro de Informática da UFPE.

Antes disso, durante toda a década de 1990, me dediquei intensamente à pesquisa em ciências da aprendizagem, na pós-graduação em psicologia cognitiva da Universidade Federal de Pernambuco, mas nunca fui exatamente apenas um acadêmico. Durante este período, participei de várias ações destinadas a materializar os resultados de minhas pesquisas na UFPE, num esforço para afastá-las dos grandes cemitérios de artigos científicos que, às vezes, tornam-se nossas universidades. Ajudei a desenhar, por exemplo, os brinquedos que durante algum tempo ocuparam o parque externo do Espaço Ciência em Olinda (PE), e que buscavam promover nos usuários do museu a curiosidade sobre conceitos tais como equivalência e velocidade.

É um trabalho de muita persistência que passa pelo processo de convencimento dentro das escolas, trabalha diferentes formas de engajamento, traz as escolas para um mundo que não é muito normalizado. Ensinar com diversão, criar novas formas de didáticas, e fazer isso com engajamento. As plataformas lúdicas de aprendizagem são para engajar os alunos nas trilhas de aprendizagem com ludicidade, com diversão. Nosso mantra é “aprendizagem, diálogo e diversão”.

Um olho no desenvolvimento, outro na audiência

As experiências profissionais não teriam acontecido da forma que aconteceram para mim se eu não tivesse iniciado minha vida profissional nos anos 1980 como empreendedor de minhas salas de aula, como professor de matemática no ensino fundamental, quando também decidi trocar o curso de engenharia eletrônica pela pedagogia. Foi com as crianças da Escola Recanto, no Recife, que aos 19 anos comecei a fazer as perguntas que, acredito, alimentaram meu desejo de empreender: Como transformar preocupações em problemas relevantes para uma audiência? Como enfrentar os dilemas que emergem da resolução de problemas? Como materializar de forma simples e única a solução de um problema? Como empoderar sua audiência com base na solução criada?

Essas eram preocupações legítimas de um jovem professor de matemática fascinado pelo desafio de trabalhar o conceito de frações com crianças de oito anos de idade, num ambiente escolar cuja coordenação e direção eram abertas para as ideias inovadoras. Foram também essas questões e outras muito semelhantes que nos guiaram, três décadas depois, na articulação da missão da Joy Street: criar cenários transformadores de aprendizagem baseados no diálogo e na diversão.

Para se tornar um empreendedor é preciso ação, fazer. Emitir nota fiscal para ter fluxo de caixa, alimentar as pessoas, qualificar o erro para aprender com ele. Fazer. Uma coisa importante é não desenvolver as ideias da sua cabeça. Converse com a sua audiência e seus mercados para descobrir suas dores e seus desejos. Um olho no desenvolvimento e o outro na audiência.


Luciano Meira é Ph.D. em educação matemática pela Universidade da Califórnia (Berkeley,EUA, 1991), mestre em psicologia cognitiva e bacharel em pedagogia. Atua como professor adjunto de psicologia na Universidade Federal de Pernambuco, professor colaborador do Mestrado em Design do C.E.S.A.R (Centro de Estudos e Sistemas Avançados do Recife), bolsista de Pesquisa em Desenvolvimento Tecnológico e Extensão Inovadora do CNPq e é coordenador de Ciência e Inovação da Joy Street, empresa de tecnologias educacionais lúdicas do Porto Digital da qual é sócio-fundador. A partir de 2017, tornou-se também um Lemann Fellow através da Stanford University, na qualidade de Visiting Scholar no Lemann Center for Educational Entrepreneurship and Innovation in Brazil.

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