{"id":2085,"date":"2017-11-20T00:00:00","date_gmt":"2017-11-20T00:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.cesar.org.br\/painel\/insight\/o-uso-de-games-e-jogos-na-educacao\/"},"modified":"2024-03-21T12:05:25","modified_gmt":"2024-03-21T12:05:25","slug":"o-uso-de-games-e-jogos-na-educacao","status":"publish","type":"insight","link":"https:\/\/www.cesar.org.br\/painel\/insight\/o-uso-de-games-e-jogos-na-educacao\/","title":{"rendered":"O uso de games e jogos na educa\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<div class=\"content-article\">\n<p id=\"33a9\"><em>por\u00a0<\/em><strong><em>Daniel Martins<\/em><\/strong><\/p>\n<blockquote id=\"0a23\">\n<p><cite><strong>N\u00e3o se trata de usar jogos na educa\u00e7\u00e3o e sim usar jogos para proporcionar uma educa\u00e7\u00e3o mais significativa, promovendo n\u00e3o s\u00f3 os conte\u00fados que nos competem, mas tamb\u00e9m habilidades necess\u00e1rias na constru\u00e7\u00e3o de seres humanos melhores.<\/strong><\/cite><\/p>\n<\/blockquote>\n<h4 id=\"ad29\">Come\u00e7ando bem do come\u00e7o: Por que (n\u00e3o)\u00a0jogamos?<\/h4>\n<p id=\"4dcc\">Todos concordam que o futebol \u00e9 o esporte mais amado em solo nacional: existe um sem n\u00famero de garotos e garotas que t\u00eam certeza de que ser\u00e3o jogadores de futebol quando crescerem, ao menos semelhantes a algum jogador de futebol que joga no exterior e que tem carros, posses e o dinheiro que eles n\u00e3o t\u00eam. O Futebol \u00e9 um esporte. Futebol \u00e9 O esporte. E esportes s\u00e3o\u00a0<strong>jogos<\/strong>.<\/p>\n<p id=\"061a\">Mas, a pergunta que n\u00e3o quer calar \u00e9: Porque vemos pessoas uniformizadas cantando un\u00edssonas em coliseus modernos de entretenimento, chorando e gritando at\u00e9 ficarem sem voz por cada gol sofrido, mas n\u00e3o vemos o mesmo acontecer quando jogamos Banco Imobili\u00e1rio ou Candy Crush? Afinal de contas, os tr\u00eas n\u00e3o s\u00e3o, igualmente, jogos?<\/p>\n<p id=\"2e2b\">Na sociedade contempor\u00e2nea, os jogos, de maneira geral, s\u00e3o considerados por muitas pessoas como atividades de car\u00e1ter imaturo, infantil, ou somente como atividades de entretenimento que servem como v\u00e1lvulas de escape para o esquecimento dos problemas da \u201cvida real\u201d, j\u00e1 que, essa sim, \u00e9 s\u00e9ria. Acontece que com o advento do pensamento Iluminista no s\u00e9culo 18, come\u00e7amos a organizar o conhecimento em \u00e1reas ou \u201cdisciplinas\u201d, e esse conhecimento deveria produzir algo tang\u00edvel, palp\u00e1vel e lucrativo. Imagino que ao olhar para os jogos algu\u00e9m deve ter se perguntado: \u201cO que isso aqui produz? Como eu ganho dinheiro com isso?\u201d, e n\u00e3o tendo de fato encontrado provas concretas que mostrassem os benef\u00edcios dos jogos, todo o potencial de desenvolvimento humano destes foi sendo subestimado perante o movimento filos\u00f3fico que se formava. Tr\u00eas s\u00e9culos depois, vivemos em uma sociedade de consumo, que n\u00e3o acha tempo para se divertir e que, usualmente, leva tudo muito a s\u00e9rio.<\/p>\n<p id=\"754e\">Segundo Abbondati (2007), na Antiguidade Cl\u00e1ssica, h\u00e1 mais de cinco mil anos, os jogos tinham um papel fundamental na constru\u00e7\u00e3o social, religiosa, \u00e9tica e moral das civiliza\u00e7\u00f5es. Um dos primeiros jogos que se tem not\u00edcia \u00e9 o\u00a0<em>Senat<\/em>, encontrado em escava\u00e7\u00f5es da tumba do fara\u00f3 Tutankhamon, no Egito, cujo nome pode ser traduzido como \u201cjogo da passagem\u201d. O Senat abordava (e ensinava) em sua narrativa os aspectos de religiosidade daquele povo e sua conex\u00e3o com o divino, dando um car\u00e1ter mais sagrado para o mesmo, e ainda era divertido.<\/p>\n<p id=\"66c3\">Isso significa que o\u00a0<em>Senat<\/em>\u00a0era um jogo educativo? Claro que n\u00e3o! Jogos educativos, s\u00e3o, em sua grande maioria, muito chatos. Eles podem ser comparados a \u201cbr\u00f3colis cobertos de chocolate\u201d: Parecem divertidos, mas quando interagimos com eles, n\u00e3o existe muita diferen\u00e7a em compara\u00e7\u00e3o a um livro did\u00e1tico e toda a sua monotonia habitual. O\u00a0<em>Senat<\/em>\u00a0\u00e9 como todos os jogos e games: e<strong>les podem ser divertidos e ainda proporcionar ou capacitar o aprendizado.<\/strong><\/p>\n<h4 id=\"d8fc\">Mas qual a diferen\u00e7a entre jogos e\u00a0games?<\/h4>\n<p id=\"eae0\">Nosso idioma \u00e9 muito limitado a nossos paradigmas, ou seja, constru\u00edmos os modelos mentais baseados em nossas experi\u00eancias, assim como os contextos sociais. No mercado de jogos e at\u00e9 mesmo na academia, existe uma esp\u00e9cie de consenso no qual jogos s\u00e3o considerados todos os artefatos l\u00fadicos que n\u00e3o necessitam de uma interface digital, e, os games, s\u00e3o os que necessitam. Em bom portugu\u00eas: se precisa de um aparelho ou tela que funciona com eletricidade, temos um game; mas se rolamos dados e jogamos cartas ao redor de uma mesa ou corremos do lado de fora de nossas casas com nossos amigos, temos um jogo.<\/p>\n<p id=\"c6de\">Quando falei das limita\u00e7\u00f5es de nosso idioma, me refiro ao sentido habitual de classificarmos as duas coisas com termos diferentes, ou ainda por definirmos jogos e brincadeiras como atividades distintas. Na real, todas essas coisas deveriam ser chamadas apenas de jogos, j\u00e1 que segundo Jesse Schell \u201cjogos (games, no original em ingl\u00eas) s\u00e3o atividades de resolu\u00e7\u00e3o de problemas, abordadas com uma atitude l\u00fadica ou divertida\u201d. Digo isso pois ambos (games e jogos) compartilham caracter\u00edsticas que os tornam extremamente envolventes, como: Possuem participantes volunt\u00e1rios, objetivos, conflitos e regras; podem ser perdidos ou vencidos; s\u00e3o interativos, possuem desafios; podem criar valores end\u00f3genos (ou seja, valores internos com seus pr\u00f3prios significados), envolvem os jogadores e, finalmente, s\u00e3o sistemas fechados e formais (ou seja, todos compreendem suas regras, mecanismos e comportamentos, concordando em segui-los fielmente).<\/p>\n<h4 id=\"cf2a\">Mas como fa\u00e7o minha sala de aula ser mais divertida do que o\u00a0celular?<\/h4>\n<p id=\"1513\">Os jogos de tabuleiro que conhecemos e jogamos em nossa inf\u00e2ncia podem parecer muito enfadonhos hoje em dia, mas existem muitos outros que podem ser ferramentas incr\u00edveis na promo\u00e7\u00e3o de conhecimento. No Col\u00e9gio Estadual Jos\u00e9 Leite Lopes onde acontece o programa *NAVE (N\u00facleo Avan\u00e7ado em Educa\u00e7\u00e3o), programa de Ensino M\u00e9dio Integrado Profissionalizante desenvolvido pelo Oi Futuro em parceria com as Secretarias de Estado de Educa\u00e7\u00e3o do Rio de Janeiro e Pernambuco, desenvolvo um projeto integrado com a disciplina de Hist\u00f3ria h\u00e1 alguns anos, onde os alunos, no bimestre em que est\u00e3o aprendendo sobre mercantilismo, feudalismo, e idade m\u00e9dia, jogam quatro jogos de tabuleiro contempor\u00e2neos onde esses assuntos s\u00e3o abordados tematicamente, narrativamente e at\u00e9 em suas regras! Uma das avalia\u00e7\u00f5es do bimestre consiste em jogar um jogo em grupo, debater como e qual qual assunto da disciplina Hist\u00f3ria est\u00e1 sendo abordado no jogo e resumir isso em um v\u00eddeo de at\u00e9 cinco minutos, complementado com uma pesquisa sobre o jogo e quem o desenvolveu. Detalhe: eu n\u00e3o ensino edi\u00e7\u00e3o de v\u00eddeo em minhas aulas, mas no final de duas semanas, o v\u00eddeo est\u00e1 pronto e todos compartilham entre si suas produ\u00e7\u00f5es, rindo bastante antes, durante e depois da atividade.<\/p>\n<p id=\"690f\">No campo dos games, Minecraft \u00e9 um fen\u00f4meno mundial, e in\u00fameros canais do YouTube lucram diariamente com os v\u00eddeos onde os elementos que o jogo apresenta s\u00e3o modificados e moldados de acordo com a criatividade dos jogadores dentro do \u201cmundo aberto\u201d que ele proporciona. Inclusive, Minecraft \u00e9 um dos temas mais procurados nos mecanismos de buscas e domina a lista dos v\u00eddeos mais assistidos do servi\u00e7o de v\u00eddeos online. O que pouca gente sabe \u00e9 que foi criado em 2011 o MinecraftEdu, uma vers\u00e3o pedag\u00f3gica do jogo, que posteriormente foi adquirido pela Microsoft em 2014 por US$ 2,5 bilh\u00f5es e que j\u00e1 possui mais de 100 milh\u00f5es de jogadores. O jogo, que j\u00e1 chegou a vender 50 mil c\u00f3pias por dia, possui projetos acad\u00eamicos ao redor do globo envolvendo Matem\u00e1tica, Qu\u00edmica, Geografia e Artes, ensinando conceitos abstratos e de dif\u00edcil compreens\u00e3o de forma clara e objetiva. Meu filho de 7 anos por exemplo, \u00e9 meu treinando de Minecraft oficial (termo inventado por ele com muito orgulho).<\/p>\n<h4 id=\"7a5a\">O que eu ganho com\u00a0isso?<\/h4>\n<p id=\"3046\">O que fica bastante claro para mim \u00e9 o potencial de Aprendizado Tangencial que os jogos possuem. Esse conceito se baseia na ideia de que os indiv\u00edduos se auto-educam e aprendem melhor quando est\u00e3o envolvidos e interessados no tema estudado e isso \u00e9 particularmente importante para as escolas, pois o que mais se ouve dos alunos de hoje em dia \u00e9 a dificuldade que possuem em achar as aulas atraentes, e,j\u00e1 que n\u00e3o se envolvem com elas, n\u00e3o aprendem nada, ou talvez at\u00e9 aprendam algo, mas o conhecimento quando n\u00e3o \u00e9 significativo, n\u00e3o \u00e9 retido pelo c\u00e9rebro.<\/p>\n<p id=\"374e\">Quando jogamos, uma das caracter\u00edsticas principais,citada anteriormente, \u00e9 o voluntarismo por parte de seus participantes. Ao querer estar envolvido na atividade l\u00fadica, nos esfor\u00e7amos para aprender suas regras, para resolver seus conflitos e desafios, a fim de que alcancemos os objetivos. J\u00e1 no col\u00e9gio, muitas vezes os estudantes s\u00e3o obrigados a estar ali, e por isso frequentemente seus c\u00e9rebros j\u00e1 s\u00e3o condicionados a resistir e desgostar.<\/p>\n<p id=\"ca9c\">Em nosso projeto integrado com a disciplina de Hist\u00f3ria, o professor relatou: \u201cA garotada chegando para mim espontaneamente e declarando que a Hist\u00f3ria t\u00e1 fazendo sentido naquele momento \u00e9 demais\u201d. Ou seja, n\u00e3o se trata de usar jogos na educa\u00e7\u00e3o e sim usar jogos para PROPORCIONAR uma educa\u00e7\u00e3o mais significativa, promovendo n\u00e3o s\u00f3 os conte\u00fados que nos competem, mas tamb\u00e9m habilidades como coopera\u00e7\u00e3o, resolu\u00e7\u00e3o de problemas complexos, racioc\u00ednio l\u00f3gico e empatia, necess\u00e1rias n\u00e3o s\u00f3 na forma\u00e7\u00e3o escolar, mas tamb\u00e9m na constru\u00e7\u00e3o de profissionais mais competentes e seres humanos melhores.<\/p>\n<p id=\"e883\">E a\u00ed, vamos jogar para mudar as salas de aula e o mundo?<\/p>\n<p id=\"45bd\"><strong><em>Daniel de Sant\u2019anna Martins<\/em><\/strong>, consultor de qualifica\u00e7\u00e3o do CESAR, \u00e9 lud\u00f3logo e designer educacional com p\u00f3s gradua\u00e7\u00e3o em Design Estrat\u00e9gico pela ESPM. Game designer autodidata, atua h\u00e1 cinco anos no mercado de jogos e na \u00e1rea de ensino, atuando em empresas, startups e auxiliando a constru\u00e7\u00e3o de cursos de jogos do RJ e outros estados, como Senai, Escola SESC de Ensino M\u00e9dio, Unigranrio, entre outros. Atualmente leciona no Col\u00e9gio Estadual Jos\u00e9 Leite Lopes onde acontece o programa NAVE (N\u00facleo Avan\u00e7ado em Educa\u00e7\u00e3o) e no SENAC-RJ.<\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"featured_media":2086,"template":"","categories":[2],"tags":[],"formato_insights":[],"class_list":["post-2085","insight","type-insight","status-publish","has-post-thumbnail","hentry","category-educacao"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.cesar.org.br\/painel\/wp-json\/wp\/v2\/insight\/2085","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.cesar.org.br\/painel\/wp-json\/wp\/v2\/insight"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.cesar.org.br\/painel\/wp-json\/wp\/v2\/types\/insight"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cesar.org.br\/painel\/wp-json\/wp\/v2\/media\/2086"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.cesar.org.br\/painel\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2085"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cesar.org.br\/painel\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2085"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cesar.org.br\/painel\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2085"},{"taxonomy":"formato_insights","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cesar.org.br\/painel\/wp-json\/wp\/v2\/formato_insights?post=2085"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}