Por pessoas antirracistas, uma nova realidade

Por pessoas antirracistas, uma nova realidade

Roberta Fernandes, Diretora de Cultura, Comunicação e Diversidade do CESAR

Por Roberta Fernandes, negra, mãe, esposa, jornalista e diretora de Comunicação, Cultura e Diversidade do CESAR

O processo de desconstrução do racismo passa pela educação. Eu não vejo outro meio de formar uma sociedade mais justa se não pelo pensamento e pelo ato antirracista. No nosso caso, no CESAR, embora a questão já nos aparecesse de forma muito clara, virou uma pauta institucional há pouco tempo. Temos metas claras, de curto e longo prazos, conduzidas por pequenos gestos e por mudanças nas estruturas internas. Os indicadores de diversidade passam a entrar muito forte a partir do ano que vem. Queremos mudanças reais.

Eu sou negra e mulher, mas sou uma exceção porque vim e sou de uma família de classe média. Tenho cabelos lisos, não me recordo de ter sido vítima de um racismo escancarado. Mas, assim como estamos fazendo no CESAR, coloquei o tema antirracismo nas conversas em casa, nas lições que passo para meus filhos. Minha filha, negra de cabelos crespos, já nasceu uma pequena ativista; meu filho, branco, é educado para ser um antirracista. Conduzo a ambos todos os dias neste sentido e, positiva como sou, acredito que já temos evoluções no mundo. Claro, o mundo ainda tem léguas a caminhar, mas quanto mais incômodo o assunto, mais ele deve reverberar. E de mais ações precisamos.

Há dois anos, criamos no CESAR um comitê de diversidade, com chamada pública a todos os colaboradores. Hoje, estamos em situação de transição, mudando a equipe do comitê. É um trabalho de formiguinha. O CESAR é diverso, tem opiniões de vários lados, mas a gente conseguiu criar muitos consensos. Negros, pessoas com deficiência (PCDs), a presença de mais mulheres em Tecnologia, mais LGBTQIA+, mais profissionais nascidos antes de 1965, essa maioria minorizada, ficam no nosso radar nessa missão de mudar a nossa cara institucional em (tomara) poucos anos.

São passos lentos, como é praxe na educação. No fim do ano, distribuiremos a cada um dos colaboradores o livro “Pequeno Manual Antirracista”, de Djamila Ribeiro. Não é uma leitura obrigatória, mas um convite a se perceber no meio disso tudo. Veja, na minha última contagem, o CESAR tinha 888 colaboradores dos quais apenas 39 se autodeclaram negros. Deles, apenas dois têm cargo de direção: Ivan (Patriota, diretor Executivo do CESAR Labs) e eu. Na base, isso vai ficando muito menor. Ou seja, o problema existe, somos parte dele e temos que contribuir.

No vídeo que produzimos, damos a cara a tapa. A própria fala de Tais (veja o vídeo no fim da página) é um alerta a todo mercado: onde estão nossos negros? Se eu abrir a porta a eles, quantos poderão entrar? São educados, têm acessos igualitários? Sabemos que as respostas são “nãos” na mesma proporção que nos sentimos motivados a mudar. Afinal, a questão racial não está apenas no tom da pele, no tipo de cabelo, nos traços individuais, mas na engrenagem social a qual somos todos submetidos. E, acredite, todos nós sofremos as consequências.

De forma prática, queremos a contratação de negros; antes disso, queremos contribuir para a formação de profissionais negros, porque o processo é longo e não dá para queimar etapas. Bolsas para negros na CESAR School, nosso braço educacional, não apenas torna nosso ambiente mais diverso como nos ajuda a formar essa mão de obra que queremos aqui dentro. É bom também para o mercado.

Em meio a isso tudo, porque defendo que a educação é o melhor método para curar o racismo, se é tão lento? Não precisaríamos de ações emergenciais? Precisamos, sim, mas a mudança deve ser definitiva. É uma mudança de paradigmas e de toda construção social na qual estamos, todos, imersos. O Brasil foi um dos últimos países a abolir a escravidão de pessoas e, libertos, esses pretos saíram da senzala para as favelas. Não houve e não há liberdade. Todo mundo sabe disso, mas a história não conta exatamente dessa forma. Não é apenas uma questão de dívida histórica, mas de reconstrução justa e necessária. Porque racismo mata, extirpa, corrói todo o sistema. Quer olhemos para ele ou não.

 

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