Cultura do “jeitinho” precisa ser transformada para não reduzir a potencialidade dos dados

Cultura do “jeitinho” precisa ser transformada para não reduzir a potencialidade dos dados

Paulo Urbano, do CESAR, Rodrigo Marques, do INPD e Thiago Ribeiro, do C6Bank (Foto: Rodrigo Rodrigues/Divulgação)

Independente da prorrogação do prazo, a LGPD já estabeleceu a discussão da proteção como tema relevante e isto é um ganho para a sociedade

Após questionar se todos já haviam colocado uma camada de proteção extra nos seus respectivos WhatsApps, Tiago Ribeiro, do C6 Bank sentenciou: 

“A forma com a qual tratamos individualmente nossas próprias identidades será o comportamento que vamos reproduzir dentro das organizações”.

Este pensamento resumiu uma das principais constatações do painel “Organizações & dados: grandes poderes e grandes responsabilidades”, realizado no Auditório CESAR, da HSM Expo.

Paulo Urbano, gerente de projetos do CESAR, disse que o tema é de fundamental importância por dois motivos. O primeiro é a oportunidade de geração de valor e diferencial competitivo com a coleta de dados de comportamento do consumidor. A outra razão é o momento de aprofundamento da questão regulatória do país com a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD).

Os participantes do debate concordaram com a colocação acrescentando que se trata de uma situação ideal para iniciar uma mudança de cultura que privilegie a proteção e o cumprimento de regras em detrimento do famoso ‘jeitinho’.

A discussão foi conduzida por Urbano e, além do representante do banco digital citado, teve a contribuição de Rodrigo Marques, do Instituto Nacional de Proteção de Dados (INPD). 

Ainda no quesito ‘jeitinho’, Marques fez questão de afastar o chamado complexo de vira-latas e ressaltar que a busca por desvios de conduta e descumprimento das normas estabelecidas não é um ‘privilégio’ somente dos brasileiros. 

“Tenho conhecimento de um caso ocorrido em um hospital da Europa onde o número de pessoas que tinham acesso a dados restritos aos médicos era muitas vezes maior do que o número de profissionais contratados”, disse. 

LGPD deveria operar na lógica da educação

Embora os temas relacionados à Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) tenham ocupado o maior tempo do painel, Marques fez questão de explicar que não chega a ser novidade para o Brasil a existência de uma legislação de proteção de dados. 

Segundo ele, o que a LGPD fez – e muito bem – foi centralizar as normas existentes e criar um arcabouço estruturado de fiscalização. Apesar disso, ele disse acreditar que esse viés de fiscalização vai nascer com pouca musculatura e por isso não será proativo, mas sim reativo e motivado por denúncias. “Na União Europeia foram registradas 89 mil denúncias que geraram fiscalização no primeiro ano de funcionamento. Acredito que no Brasil este número será ainda maior”, disse.  

Neste sentido o especialista teme que a LGPD não consiga operar da forma que seria ideal, que é na lógica da educação. “O brasileiro não tem hábito de cuidar dos seus dados online. As pessoas emprestam as senhas e os certificados digitais. Isto equivale a assinar um cheque em branco. Desta forma, se não começar a atuar na educação, a fiscalização da LGPD terá apenas um papel meramente arrecadador”, disse. 

Com relação ao caráter punitivo da nova legislação, Marques alertou para um fato que pode ser até pior do que os temidos R$ 50 milhões em multas que são sempre citados como o maior problema para quem não estiver em conformidade. “Se acontecer um vazamento, a empresa pode ser obrigada a ir à grande mídia e comunicar este fato. Isso pode refletir numa perda financeira mais substancial do que os R$ 50 milhões”, disse.

Independente de fiscalizações e punições, o executivo do C6 Bank declarou que a identidade e o acesso são os calcanhares de Aquiles de qualquer organização. 

Migração para cloud é um dos principais desafios na Transformação Digital

Dessa forma, segundo ele, um dos principais desafios em termos de transformação digital é tomar cuidado com a migração para cloud. 

“É necessário pensar bem na estratégia e não somente ir por ir. Tem que pensar em obter os melhores resultados, principalmente em termos de segurança. Enquanto não se preocupar com isso, a empresa não está preparada para fazer essa migração”, disse.

Ribeiro afirmou que a grande responsabilidade das empresas é desenvolver uma cultura na qual a segurança esteja num pilar que não possa ser negligenciado. “As nuvens são seguras, mas a maneira como elas são usadas é que está na raiz do problema”, afirmou. 

Em sua visão, a LGPD vai cobrar mais expertise e habilidade de manipulação nos ambientes de nuvem.

“Não tem saída hoje para as empresas a não ser procurar os cloud providers e iniciar imediatamente processos de ampliação da segurança”, disse. 

Perguntado sobre sua expectativa em relação ao cumprimento do prazo para as empresas estarem em conformidade com a LGPD, ele disse que não vê um cenário muito positivo. “Os indícios são de que ainda estamos muito longe de concluir este processo”, disse.

Completando essa informação, o representando do INPD trouxe a informação sobre como esse processo se deu na Europa. Segundo ele o velho continente começou a discutir essa legislação na década de 70, e quando ela entrou em vigor no ano passado, apenas 6% das empresas estavam em conformidade. “Se eles discutiram isso por mais de 40 anos e tiveram esse resultado, imaginem nós, que começamos a falar do assunto recentemente!”, provocou.

Mas apesar dessa provocação, Marques deixou uma mensagem positiva à plateia. Segundo ele, independente do prazo, toda a movimentação em torno da LGPD já teve o mérito de trazer a discussão sobre segurança de dados para o centro do debate nacional. 

“A LGPD é uma lei sobre prevenção e o fato dela ter ganhado tamanha relevância já é um ganho para a sociedade – porque tenho certeza que se trata de um processo irreversível “, concluiu.

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