Só um tiquinho do Hack Town 2018, em Santa Rita do Sapucaí/MG

Só um tiquinho do Hack Town 2018, em Santa Rita do Sapucaí/MG


Entrada do Instituto Nacional de Telecomunicações e instalação de flores em TVs antigas na praça de Santa Rita

No último feriado, de 6 a 9 de setembro, pude confirmar que o já famoso Hack Town, que acontece em Santa Rita do Sapucaí/MG, de fato preza pela mistura de interesses e possibilidades. Foram mais de 300 eventos acontecendo simultaneamente em diferentes pontos da cidade, sendo palestras, estudos de caso, workshops e música, para mais de 5.000 pessoas. No evento, inspirado no americano South by Southwest (SXSW) e no alemão Tech Open Air, não vi nenhuma sala ou espaço vazio, mas uma atmosfera incrível de aprendizagem e trocas. Por isso compartilho só um tiquim (como diríamos nós mineiros) do que vi por ali.

Foi no Laboratório de Ideação e Criatividade do Inatel (Instituto Nacional de Telecomunicações) que tive meu primeiro contato com todo aquele ecossistema de aprendizagem e inovação. Enquanto na sala ao lado rolava uma palestra pré-evento sobre Tendências e Perspectivas para o IoT e 5G, um estudante prototipava uma solução para armazenamento de medicamentos que precisam ser mantidos resfriados, em lugares que não possuem energia elétrica. O laboratório funciona 24h, todos os dias da semana, e é bem equipado. Troquei algumas figurinhas com Raphael Pereira, responsável pelo Laboratório e Núcleo de Empreendedorismo, e já combinamos de compartilhar conteúdos e transmissão de eventos.


Laboratório de Ideação e Criatividade do Inatel

Como foi a sexta
Logo no primeiro horário do primeiro dia oficial do evento, na sexta, apresentei uma palestra com o título: Sobre Identificar, Potencializar e Concretizar — uma versão deste post que publiquei junto com alguns colegas como parte das nossas reflexões quanto a importância em refletir a missão da organização em seus processos. Confesso que, por ser logo cedo e estar competindo com mais de 20 outros conteúdos no mesmo horário, temi que não aparecessem muitos interessados. Me enganei! Ufa! O público compareceu, era bem diverso, interessado e contribuiu com perguntas relevantes, ajudando a completar a mensagem que queria passar. A designer Bianca Ponte, da Ludik, por exemplo, fechou a sessão falando sobre a importância de entendermos nossos próprios propósitos e missões, e de levarmos isso para o nosso trabalho. Lindo de se ouvir! Muito prazer, Bianca!


Slides da minha apresentação

Na sequência, o professor Caio Vassao e Davi Moreno apresentaram Inovação na Real: como inovar mão na massa contradizendo, em parte, o que eu havia apresentado, afirmando:

“Inovação não atende necessidades — cria necessidades.”

O talk mesclou filosofia e dados e trouxe ideias complementares às que apresentei. Aliás, como não poderia deixar de ser, a palavra inovação foi uma das mais citadas. Dava para tirar conceitos e referências de cada uma delas, misturar tudo, analisar sobre a ótica da realidade de cada negócio e tirar as próprias conclusões e aprendizados.

Foi no salão de uma pizzaria, com pequenas interrupções do barulho do trenzinho de passeio infantil que entrava pelos janelões de um antigo casarão (Juro que não atrapalhou! Só serviu para lembrar que estávamos numa charmosa cidadezinha do interior), que o ex-CESAR Paulo Melo contou, juntamente com outros colegas, sua experiência num programa de estudos em Israel. Impressionante pensar que um país do tamanho do estado de Sergipe, envolto por tantos conflitos e questões culturais e religiosas, só perde para o Vale do Silício no que se refere a quantidade de Centros de Inovação e Tecnologia, tornando-se conhecida como a “nação das start-ups”. Quer saber mais sobre O ecossistema de inovação em Israel e o que o Brasil pode aprender? Pergunte a Paulo Melo, Francisca Limberger e Lucas Bernar


Bicicletas da Ellos.bike para aluguel

Nos talks e demonstrações de start-ups, destaco a Ellos.bike, serviço de mobilidade para eventos e festivais através do aluguel de bicicletas, que enfeitou as ruas da cidade em sua primeira prova de mercado. Serviço relevante para um evento que contava com 29 pontos de encontro espalhados pela cidade. Espero que tenham encontrado respostas favoráveis para as perguntas que tinham.

Outra start-up que curti foi a Bluezup de aluguel de eletrônicos que, além de estar alinhada com os conceitos de Economia Compartilhada, Economia da Recorrência e Lógica Dominante de Serviços, possibilita que, ao final do aluguel, o cliente escolha entre comprar ou devolver o produto alugado. Assim, o foco não está apenas no aluguel pelo aluguel, mas em ajudar o cliente a testar um produto, geralmente caro, antes de decidir pela compra.

Aliás, eu diria que os conteúdos para startups e empreendedorismo — sobre desafios, aprendizados, dicas, casos de sucesso (e insucesso) eram os mais concorridos. Sem burocracia ou preocupação com superlotação, em todas as sessões as pessoas iam entrando e sentando onde conseguiam, até bloquear a porta. Simples assim, mas tudo sob-controle.


Sala lotada, porta bloqueada. Ninguém sai, ninguém mais entra, quando o assunto é empreendedorismo

A palestra Precisamos ir mais fundo: inovando com Deep Learning, do colega Vitor Casadei fechou bem o primeiro dia. Foi em um espaço nos entornos da praça principal da cidade e teve o privilégio de ser “incomodado” pelos sinos da igreja e até pela Ave Maria das 18h. Foi daquelas palestras em que as pessoas não param de perguntar, contribuir, trazer mais exemplos e experiências. Enfim, tivemos que continuar a conversa na praça, ao sabor de uma paella mineira (arroz com galinha, carne de porco, bacon, couve e outros segredinhos), chopp artesanal local e churros. Isso! Churros! Qual foi a última vez que você comeu churros na praça de uma cidade de interior, em frente à igreja matriz, conversando sobre robôs?


Meu colega do CESAR, Vitor Casadei, palestrando sobre Machine Learning

Como foi o sábado
Foi no laboratório de eletrônica da Escola Técnica (lotado de equipamentos) que meu colega Daniel T. V. Pereira abriu uma das programações do primeiro horário do sábado, apresentando uma proposta de união/agregação dos esforços no desenvolvimento de plataformas de IoT, com o título Knot: Uma plataforma de IoT Interoperável para o Brasil. As trocas de experiência com os presentes foi valiosa.


Daniel conversando sobre a plataforma Knot

Zé Barros, gerente geral dos restaurantes Spot, de São Paulo, nos contou O que há por trás de um restaurante de sucesso. Dessa vez, a escolha do assunto foi pessoal, já que meu marido recentemente adquiriu um restaurante. Isso prova ainda mais o valor do evento, ao oferecer uma diversidade tão grande de assuntos. Ainda assim, muito do que foi dito referia-se aos princípios de Design de Serviço que estudamos e aplicamos nos projetos do CESAR. Ele reforçou a ideia de que “não vendem comida, mas experiência” e recomendou os livros que revelam a cultura de detalhes da Disney.


Livros sobre o caso Disney

Ainda sobre Design de Serviços, gostei de ver Alessandro Ng e Heitor Murbach, da Famto, confrontar os livros Sprint, da Google Ventures, e The Service Startup, de Tenny Pinheiro. Percebi que, assim como eu, eles são mais fãs do segundo e se incomodam com essa ideia de que em 5 dias pode-se criar e validar uma solução, sem muito contexto inicial. Pois é, tenho visto várias empresas solicitando a aplicação da metodologia Design Sprint para resolver “qualquer tipo de problema”. Precisamos ser firmes em dizer que não é por aí, gente! Segundo os rapazes, o próprio autor do Sprint, Jane Knapp, já não segue o processo conforme seu livro há mais de 2 anos. Será mesmo? Interessante ouvir isso, em especial num espaço aberto maravilhoso, num lindo dia de céu azul e temperatura perfeita, ao som das maritacas no alto de um coqueiro — a concorrência foi grande!


Livros referência em abordagens ágeis de Design

Vídeo que gravei com o som das maritacas concorrendo com a palestra da Famto

Foi no salão de um restaurante, ao som e cheiro do preparo do almoço mineiro, que ouvi Wagner Lucio falando sobre FoodDesign. Há algum tempo as questões relacionadas à alimentação sustentável e sobre nossa relação com o alimento, em toda sua cadeia, tem mexido comigo. Wagner trouxe conceitos como Design Regenerativo, Economia Circular e Novas jornadas de consumo e produção de alimentos (ex.: fast food X slow food), dentre outros, mostrando a importância em ter o Designer como projetista, participando ativamente em projetos de alimentação. Ele é professor do curso de FoodDesign (Sabiam que existe?) do IED São Paulo — Istituto Europeo di Design e apresentou cases como a embalagem de água que dissolve na boca sem gerar resíduos; impressoras 3D de alimentos; uma tatuagem temporária dessas de chiclete que, quando aplicada à pele, serve de teste de alergia alimentar; e o papel-receita, que ajuda a elaborar uma receita posicionando os ingredientes em partes específicas de um papel manteiga. Depois, basta fechar formando um papelote e colocar no forno.


Impressoras 3D de alimentos no topo e à esquerda; Papel-manteiga com receita e procedimentos impressos

Foresight e Design: estratégias para o futuro foi apresentado por Travis Kupp da SunTrust (Serviços Financeiros) no teatro do Inatel, trazendo conceitos e ferramentas de design para pensarmos o futuro. Um dos cases traz inteligência artificial para ajudar nas decisões e comportamentos financeiros, através do uso de informações fisiológicas das pessoas. Isso por considerar que tomamos decisões diferentes ao sentir coisas diferentes e que, ao aprender nossos hábitos, IA deveria tentar melhorá-los, ao invés de apenas reforçá-los. Ele conclui demonstrando boas intenções e desafiando a todos:

“Vamos tornar o futuro mais aberto, inclusivo e acessível?”

Denis Piaia, Head de Design da Superlógica, mediou o bate-papo O que os designers podem aprender com a cultura Devops, no formato Fishbowl, que começa com 2 ou 3 facilitadores debatendo um assunto, deixando uma cadeira disponível para alguém da plateia se juntar e contribuir com o debate, mesmo que com perguntas. O grupo reforçou que não se trata de um processo e muito menos de um cargo dentro das empresas, mas sim de um mindset — um pensamento constante e colaborativo, de responsabilidade de todo o time, do tipo:

“Como podemos melhorar esse processo?”

visando sempre agilidade, escalabilidade e qualidade. Citaram que um dos pilares desta cultura, que preza pela descentralização da gestão, é o ciclo de feedbacks. E que Design System é o caminho para escalabilidade e aumento de qualidade do trabalho de grandes times de Design que trabalham no mesmo produto (referências citadas, além deles: Spotify e Netflix).

Encerraram com um vídeo do TED sobre liderança: Como iniciar um movimento. Ele mostra que o mérito não está na primeira pessoa que teve a coragem de fazer algo diferente, mas no primeiro seguidor que transforma um maluco solitário em um líder. Sensacional!

TED de Derek Sivers, 2010 — Como iniciar um movimento

A última palestra que assisti foi IOT e Blockchain em Saúde: o que podemos esperar dessa combinação nos próximos anos, do Alison Marczewski. Achei interessante a ideia de que meus dados médicos, por exemplo prontuários e exames, estariam disponíveis para estudos, análises e comparações com dados de qualquer pessoa do mundo, formando um grande banco de dados e conhecimento e que, através de uso da inteligência artificial, poderiam ajudar a encontrar padrões e prever tendências de doenças, contribuindo para possível prevenção. Mesmo defendendo que os dados seriam de propriedade de cada um (eu poderia inclusive vender meus próprios dados), e não das empresas que os coletam, a discussão sobre segurança, privacidade e propriedade dos dados esquentou um pouco, naturalmente. Enfim, ainda é um conceito muito novo, desconhecido mas tem muuuuita gente estudando a respeito.

E o domingo?
O domingo foi dedicado principalmente aos workshops — assuntos bem diversos, com programação até as 17h00. Mas por serem bem concorridos, exigiam inscrição com antecedência. Dei bobeira, fiquei sem. Também não consegui curtir muito as atrações musicais ao longo do evento — fica pra próxima.

Agradeço e parabenizo a organização, que de tão eficiente era quase transparente no evento.

Super recomendo! Ano que vem tem mais! Tamo junto!

 

Giselle Rossi Araujo – UX Designer. Vim de BH, fui pra Sampa, estou em Recife, mas projeto para o mundo.

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