Propósito e resiliência para ser grande

Propósito e resiliência para ser grande

por André Ferraz

Empreender é mais do que fundar uma startup famosa e fazer muito dinheiro. É ter uma missão e seguir firme no objetivo, apesar dos obstáculos.

A minha história como empreendedor se confunde com a história da In Loco, empresa de tecnologia de localização que fundei com os meus sócios quando ainda estudávamos Ciências da Computação na Universidade Federal de Pernambuco. Parece que faz uma eternidade, mas essa história começou há apenas sete anos.

Com propósito e persistência, neste intervalo de tempo construímos uma empresa reconhecida pela Microsoft como a detentora da localização mais precisa do mundo para fins comerciais, desenvolvemos produtos para solucionar demandas relacionadas à mídia, aplicativos e antifraudes, temos um time de 170 pessoas, escritórios em um dos mais icônicos prédios do Porto Digital, em Recife, São Paulo e Rio de Janeiro, já atuamos nos Estados Unidos, e isso tudo ainda não está nem perto de onde queremos e vamos chegar.

Mas para estar onde estamos hoje, temos que voltar algum tempo no passado. Um ponto na história muito anterior ao meu encontro com os meus sócios. Mais precisamente, na minha infância. Sou filho de dois nerds: minha mãe é engenheira e meu pai, professor de Ciência da Computação. Eu tinha uns quatro ou cinco anos quando eles começaram a estudar um campo da tecnologia conhecido como “computação ubíqua”, uma teoria que defende que no futuro os computadores serão tão inteligentes e proativos que responderão às nossas perguntas e serão capazes de “prever” o que queremos, antes mesmo de darmos uma ordem a eles. O assunto computação era frequente na minha casa. E eu, acompanhando. Comecei a entender de fato o que era a computação com uns oito anos. Com 10, 11 anos, eu ouvia as conversas sobre computação ubíqua e já tinha noção do que estava por trás. Apesar desse contexto, eu era uma criança que brincava como todas as da minha geração, mas de certa forma eu gostava de brincadeiras que talvez indicassem meu interesse pelo que faço hoje. Eu me divertia criando joguinhos de computador, desmontando e remontando os carrinhos ao invés de brincar de corrida com eles… Na adolescência eu já sabia um pouco de programação, Matemática sempre foi meu forte. Estava claro que eu ia seguir meu caminho na área de exatas. A escolha do curso na universidade veio daí, por gostar de computação e por afinidade. Nessa época, tive uma experiência de trabalho como estagiário, não gostei, e então tive a certeza que eu queria fazer as minhas próprias coisas. Sempre quis.

2011 foi o ano de virada. Cursando a disciplina de Projeto de Desenvolvimento na Universidade, conhecida pelos estudantes como “Projetão”, os amigos que hoje são meus sócios e eu tínhamos que criar o protótipo de um produto ou serviço real, validar a ideia com o mercado, vendê-la para um cliente real e simular o dia a dia de uma startup. Experiência enriquecedora que oferece aos estudantes universitários uma rara chance de colocar na prática seus conhecimentos dentro de um pensamento empreendedor. Nossa ideia era criar uma plataforma que enviaria aplicações temporárias para um smartphone, laptop ou qualquer outro aparelho móvel com acesso à internet sem fio. Assim, apps de bancos, shoppings e restaurantes seriam instalados automaticamente, de acordo com a localização do usuário, sem a necessidade de intervenção manual. Era o início do nosso caminho para criar a plataforma da era da computação ubíqua.

Com o passar do tempo, no entanto, a instalação automática de aplicativos se provou tecnicamente impossível e o escopo do projeto original impediria a entrega do protótipo em tempo hábil. Por isso, decidimos criar uma versão mais compacta: um aplicativo para shoppings com navegação indoor, gamificação e ofertas especiais para os consumidores que tivessem esse app instalado. O dono do shopping pagaria pelo aplicativo em troca de relatórios sobre o comportamento dos consumidores que visitaram o local. O produto foi batizado de Ubee. Com determinação empreendedora, decidimos criar a nossa própria tecnologia de geolocalização indoor. O que nasceu como um projeto universitário ganhou exposição nacional como a 5ª melhor startup brasileira no Desafio Brasil 2011, uma competição de startups promovida pela Intel, e começou a chamar a atenção de investidores e da imprensa. Com o prêmio, fomos eleitos para participar da incubação do Porto Digital, um grande passo para o nosso negócio. Lá, focamos e ganhamos consciência sobre o valor do nosso projeto.

E, assim, o tempo passou. Em 2013, com um aluguel de R$ 700 ao mês, fomos para o nosso primeiro escritório, contratamos os primeiros funcionários. A nossa tecnologia e produto avançaram bastante naquele ano graças à dedicação do time. Foi aí que nasceu a nossa solução para publicidade geolocalizada, nomeada na época como Ubee Ads.

Mas 2014 chegou e a situação ligeiramente confortável em que nos encontrávamos acabou. Começamos a sentir a pressão da crise financeira do Brasil. Na ocasião, o Ubee Ads se transformou na In Loco Media e foi lançado no mercado a partir da entrada do nosso primeiro publisher, o aplicativo Eu Sei. Dois meses após o lançamento, a In Loco Media se transformou em uma empresa rentável. O projeto que iniciamos em 2011 havia, finalmente, dado frutos. Naquele mesmo ano, a nossa tecnologia exclusiva de geolocalização indoor foi premiada na IPSN 2014 pela Microsoft, na cidade de Berlim. Esse foi apenas o início da jornada.

Em 2015, surgiram novos problemas e a lucratividade da empresa caiu drasticamente. Nesta fase destruí cinco sapatos graças às longas caminhadas e corridas que eu dava para não me atrasar para as reuniões com clientes. Afinal, o trânsito de São Paulo é uma loucura e eu não tinha dinheiro para arcar com viagens de táxi diariamente. Mas avançamos e realizamos as primeiras contratações fora da área de tecnologia. Como resultado, fomos selecionados como uma das 15 startups mais promissoras do mercado publicitário do mundo no programa Startup Academy do Cannes Lions Innovation 2015. Além disso, fomos premiados nas categorias Lead Generation e Location Based do The Smarties Awards Global de 2015.

O ano seguinte foi igualmente intenso, porém em termos de tração e otimização da nossa tecnologia. Este foi o momento em que notamos uma grande oportunidade para começar a trabalhar com dados sem, necessariamente, estarem vinculados a campanhas publicitárias. Foi assim o princípio da In Loco como o mundo conhece hoje.

Quebramos três vezes, mas não paramos de evoluir. As crises trouxeram aprendizados importantes. Com a primeira, aprendemos que nunca se deve fazer nada de graça — se o cliente não sente o bolso, não dá valor, independente de quão boa seja a solução que está recebendo. Na segunda ganhamos ciência de que no embate entre o executivo que representa o cliente e você, dono do negócio, ganha quem tem mais poder. É preciso estar disposto a perder tudo para encarar uma “briga” assim. E o aprendizado que eu tiro da terceira crise pela qual passamos é que a gente tem que confiar no instinto. Fizemos investimentos agressivos que podiam ter quebrado a empresa. Uma pessoa mais racional, no meu lugar, talvez não tivesse feito esses investimentos e passado pela turbulência. Mas ela foi extremamente necessária, e, no final, conseguimos construir a plataforma. É isso que importa para mim. Se tivéssemos investido menos, o ano teria sido mais lucrativo para a empresa, mas a plataforma não teria saído. Às vezes a gente tem que ser doido mesmo, confiar mais no instinto do que na razão.

Empreender é mais do que fundar uma startup famosa e fazer muito dinheiro. Ser empreendedor é ter uma missão e seguir firme no objetivo, apesar dos obstáculos. Independente do tamanho que a In Loco tem hoje, eu quero torná-la muito maior, global. Queremos atingir a visão da empresa. Olhar para o passado nos orgulha, mas é quando olhamos para o futuro que encontramos a certeza de que a realização do nosso sonho está só começando.


André Ferraz é cofundador e CEO da In Loco, empresa de tecnologia pioneira no mercado de soluções baseadas em inteligência de localização para mídia, aplicativos e antifraude na América Latina. É membro da rede de empreendedores Endeavor, acumula palestras no mercado nacional e internacional como em Cannes Lions, Brazil Forum UK, ProXXima, IAB AdTech, Forum MMA Brasil, e tem artigos publicados em diversos veículos nacionais.

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