O Mangue Beat na revolução digital

O Mangue Beat na revolução digital

por Luiz Gomes

Nas conexões descentralizadas e orgânicas, aprendemos que ao empoderar pessoas despertamos o melhor de cada uma delas.

Quando o mangue soterrado pelo crescimento desenfreado do Recife explodiu no movimento sócio-cultural Mangue Beat, o comportamento rebelde dos caranguejos com cérebro nos trouxe uma releitura das tradições que alçaram a cidade como uma referência musical no País. Vinte e seis anos depois, os caranguejos com cérebro tornaram-se caranguejos digitais, conectados com o mundo, trabalhando juntos para transformar Recife em referência global de inovação.

Na extinta e muitas vezes reconstruída ilha da Cidade Maurícia, hoje o Recife Antigo, talentos tecnológicos saíram inquietos da universidade e colocaram seus pés na lama. Com o propósito de ir ao encontro das tradições pernambucanas, abriram as portas do que hoje é um dos melhores centros de estudo avançado de software, o CESAREste foi o primeiro passo para conter e reduzir a taxa de exportação de talentos pela qual passava o Recife no final dos anos de 1990.

Com o surgimento do Porto Digital nos anos 2000, novas empresas foram criadas e deram início a outra “revolução pernambucana”, desta vez uma revolução digital. Começava um movimento empreendedor que buscava solucionar os mais diversos problemas globais do presente e do futuro, e o Porto Digital foi um dos principais responsáveis por organizar a casa, sem deixar de prover novas oportunidades de crescimento para os empreendimentos locais. Quando entrei no ambiente do Porto Digital, trabalhando numa empresa de consultoria e vindo da experiência de sala de aula como professor, eu tinha outra visão do contexto — ainda não tinha o olhar para o viés de comunidade. Até que em 2013, ao criar uma startup em Recife, comecei a entender melhor como funciona essa mecânica. Na época, tive a chance de morar no Vale do Silício, em Roterdã, São Paulo e Belo Horizonte, onde conheci outros aspectos que despertaram meu interesse em aprimorar nossa comunidade digital do Recife.

Sinergia e colaborativismo

Nos últimos cinco anos, o espírito revolucionário dos caranguejos digitais se fez presente. Saídos da lama, chegamos ao caos com novos empreendedores emergindo pela cidade. Com um novo mindset, eles olhavam para o mundo como olhamos o jardim de casa. Nascia aqui a revolução digital 2.0. Por meio da colaboração consciente, surgia a Manguez.al, comunidade de startups nascidas no Recife para apoiar práticas colaborativas e aprendizagem de tecnologia, design e empreendedorismo em todo o ecossistema de inicialização.

Meu papel mais pujante, em 2016, emergiu no contexto de comunidade com uma nova leitura do que Recife representava — suas forças e fraquezas, suas conexões, para onde estamos indo e para onde deveríamos ir. Boa parte do que estudo e pesquiso até hoje é norteada por este olhar macro. Hoje, somos uma rede com pessoas de diversas áreas que doam seu tempo para desenvolver as comunidades numa estrutura horizontal, aberta. Até 2010, 2011, os negócios de tecnologia surgiam e cresciam dentro do mesmo modelo: nasce com a oportunidade do primeiro cliente, cria uma tecnologia robusta, tenta vender e, conseguindo ou não vender, passa a buscar investimento e fomento para se manter no mercado. No entanto, com a mudança de mindset, os players de mercado tendem a colaborar uns com os outros no lugar do “segredo” do negócio. Aprendemos então que não adianta fechar o negócio nele mesmo ou depender de verba pública para existir, por exemplo, porque ainda assim haverá o risco da má execução. Para que a empresa possa crescer gerando oportunidades locais e impactos dentro de um mercado que ela enxerga como alvo é preciso desenvolver-se dentro desse contexto colaborativista. Junto a dezenas de pessoas “inconformadas” com o modelo antigo, assumimos esta revolução como um laboratório que une o mercado ao ecossistema das comunidades que possuem objetivos comuns. Desafiamos as estruturas digitais criadas no Recife com nossas ideias mirabolantes se espalhando pela cidade, buscando abrigo seguro para os primeiros passos. A vontade de aprender mais abriu portas para o desconhecido. Como na música, trouxemos elementos novos para a comunidade, como o Startup Weekend. Hackeado das edições que até então só ocorriam no eixo Rio-São Paulo, executamos o primeiro Startup Weekend de Recife em 2011.

Aprendemos juntos que para inovar e fazer diferença no mangue é preciso colocar as mãos na lama e pôr a cara no sol. Só assim conseguimos transformar nossas ideias e invenções em produtos ou serviços adequados para que algum mercado queira pagar por isso. Mas não se engane, os primeiros passos foram difíceis. Não foi fácil encontrar sinergia que transformasse a comunidade num ecossistema. As dificuldades de aproximação afastaram os jovens aratus e suas startups das empresas mais tradicionais e de seus robustos guaiamuns. Para que continuássemos desorganizando o presente para organizar o futuro tínhamos que encontrar as intercessões entre os caranguejos.

Como nos espaços biológicos, o Manguez.al é rico pela diversidade. Conseguimos chamar atenção e atrair gerações, habilidades, experiências, visões e motivações de centenas de pessoas. Essa nova desordem deu espaço para a inovação. Saltamos da quarta pior cidade do mundo para o patamar de a única comunidade de startups no Brasil inserida como referência em fóruns e estudos internacionais, como no Global Clusters of Innovation, de Jerome A. Engel.

O fluxo de crescimento no mercado brasileiro sempre aponta para São Paulo, o grande centro, o melhor lugar para se fazer visível a investidores e potenciais clientes. Contudo, movidos pelo desafio e espírito rebelde, os caranguejos digitais de Recife propuseram inverter o caminho, trazer quem é de fora para dentro do mangue, colocar os pés na lama e descobrir o que está sendo produzido por aqui. Trabalhando juntos, tornamos o Mangue.bit um marco e invertemos as regras do jogo. Na 1ª edição, trouxemos mais de 30 pessoas para Recife, entre investidores, empreendedores e profissionais que contribuíram compartilhando experiências e conhecimento. Em 2017, cumprimos o desafio de dobrar o tamanho do evento. Mais de 400 pessoas participaram do evento, que alcançou a ordem de R$ 100 mil. Entre os participantes, referências locais e nacionais enriqueceram ainda mais nosso mangue.

Para mim, é muito importante fazer parte deste trabalho que está transformando Recife em uma comunidade empreendedora relevante. Emergimos da lama e não deixaremos nosso mangue. O futuro do Manguez.al está nas suas origens. Nas conexões descentralizadas e orgânicas aprendemos que ao empoderar pessoas despertamos o melhor de cada uma delas. E como community leaders, continuaremos a apoiar ações que impactem empreendedores nos mais diversos níveis de desenvolvimento. Cada vez mais vejo o mercado financeiro somado ao ecossistema criando um contexto empreendedor, e acredito que as revoluções digitais são possíveis com colaboração entre os caranguejos. Seguindo os passos descritos no manifesto do Mangue Beat, chegou a hora de escrevermos o manifesto do Manguez.al, a inovação dos caranguejo com cérebro nas redes digitais globais.


Luiz Gomes é matemático e empreendedor por atitude, estrategista, especialista em métodos ágeis e gestão de produtos. Escritor por opção, tem interesse em café, novas tecnologias e desenvolvimento de negócios digitais através das startups. Cofundador da Lotebox, startup de logística marítima internacional investida pelo porto de Rotterdam. É diretor de novos negócios do Ser Educacional, onde desenvolve uma estrutura de investimento em startups como novas oportunidades de negócio.

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