O que a prototipagem 3D tem feito para Pernambuco

O que a prototipagem 3D tem feito para Pernambuco

por Dr. Pablo Maricevich

Para cada morte [por acidente de trânsito] há entre três a quatro sequelados. Normalmente, são pacientes jovens em plena fase ativa da vida que param de trabalhar e se aposentam precocemente.

Em Pernambuco vivemos uma situação de preocupação em relação a violência pública. Tanto no que diz respeito a criminalidade quanto à violência no trânsito. O Hospital da Restauração (HR) absorve grande parte desta demanda e basta passar alguns minutos percorrendo a Unidade de Trauma ou qualquer Enfermaria do HR para se ter uma idéia deste grave quadro social. Um médico que tenha atuado na Emergência do HR já passou por situações e experiências que o habilitam a atuar em qualquer zona de conflito do mundo.

Todavia, muitos destes pacientes são salvos. Isso vai depender basicamente, da gravidade do trauma inicial e da saúde prévia do indivíduo. Para cada morte há entre três a quatro sequelados. Destaca-se neste quadro o índice alarmante de acidentes de motocicletas. Normalmente, são pacientes jovens em plena fase ativa da vida que param de trabalhar e se aposentam precocemente: “vão para o benefício”. A Cirurgia Plástica recebe muitos destes sequelados com queixas funcionais e estéticas: são em sua maioria, pacientes sobreviventes de traumas cranianos graves com ausência de grande parte dos ossos do crânio.

As sequelas destes pacientes podem ser pela lesão cerebral do trauma inicial ou pela simples ausência dos ossos do crânio, e são de gravidade variável. O aspecto bizarro do crânio, como se estivesse faltando “metade da cabeça”, também representa uma sequela significativa, já que causa diversos transtornos sociais e, por si só, impede que o paciente tenha uma vida normal mesmo que não haja sintoma neurológico.

Fonte: SIM/ SEVS/ SES-PE; dados captados em 02/03/2016, sujeitos a revisão

Desde o final de 2014, já realizamos mais de 70 reconstruções cranianas no Hospital da Restauração. A maioria delas em pacientes vítimas de acidente de moto. Esta cirurgia tem o propósito de proteger o cérebro contra traumas, melhorar sintomas neurológicos e restabelecer o contorno craniano. Apesar do número de cirurgias realizadas, os acidentes não param de acontecer e a fila sempre ganha novos candidatos toda semana. Aproximadamente 70 pacientes aguardam esta cirurgia no Hospital da Restauração. A maioria destes casos apresentam defeitos provenientes de traumas no crânio que, por serem muito grandes, exigem que a reconstrução seja feita com próteses de material aloplástico.

O material de confecção destas próteses no SUS é o cimento cirúrgico ou polimetil metacrilato (PMMA). Este material comporta-se exatamente como uma massa de modelar que a princípio é moldável, mas que com o passar de alguns minutos endurece em sua forma final. Inicialmente, as próteses eram moldadas artesanalmente, com as mãos por sobre o defeito, durante a cirurgia. Atualmente, fazemos esta moldagem com a ajuda da prototipagem e de impressoras 3D. A confecção das próteses manualmente muitas vezes atinge seu propósito funcional, no entanto dificilmente terá o grau de perfeição e detalhamento de uma prótese feita por prototipagem. Outras vantagens da prototipagem sobre o meio convencional são: menor tempo cirúrgico, menos anestesia, menos medicações, menor risco de complicações e, possivelmente, uma redução no custo final de todo o processo de tratamento.

O Hospital da Restauração, em parceria com o Centro de Tecnologia da Informação Renato Archer (CTI/RA) em Campinas — SP, possibilita o acesso dessa tecnologia aos pacientes do SUS em Pernambuco. Somos pioneiros regionalmente neste tipo de cirurgia e, provavelmente, o centro de reconstrução craniana por prototipagem mais ativo do país. Com esta parceria, conseguimos reduzir significativamente o custo destas próteses e tornamos possível que o paciente do serviço público tenha um tratamento de ponta. De outra forma, tendo em vista os preços altíssimos cobrados pelas empresas privadas, dificilmente haveria esta oportunidade.

Fonte: SINAT/SEV/ SES-PE. Dados de 11/04/2016, sujeitos a revisão.

Atualmente, o CTI/RA exerce um papel indispensável no desenvolvimento do nosso trabalho. É um centro público ligado ao Ministério das Ciências, Tecnologia e Inovação, e é responsável justamente pelo desenvolvimento e aprimoramento de novas tecnologias. O CTI/RA não tem, a princípio, uma função assistencialista. Porém em um futuro próximo, a tendência é que, de alguma forma, tenhamos que criar nosso próprio Centro de Prototipagem nos moldes do CTI/RA para que nos tornemos um pouco mais independentes e para que eles possam focar o trabalho nas novas outras tecnologias que virão.

Finalmente, acreditamos que uma condição crucial para uma tecnologia ser bem sucedida é o fato de ser acessível. Não adianta de nada desenvolvermos o que há de mais moderno se esta descoberta fica apenas no laboratório ou se os custos são impraticáveis. Há sempre de se achar um jeito de driblar estas dificuldades. No Hospital da Restauração a prototipagem e impressão 3D estão sendo usadas não apenas para reconstruir crânios, mas sim para reconstruir e ressocializar vidas.

Dr. Pablo Maricevich é Cirurgião Plástico do HR de PE e Sócio na clínica AVIVA Cirurgia Plástica (pablo@avivacirurgiaplastica.com.br)

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